A oitenta quilômetros a sudoeste de Berlim, em Brandemburgo, duas redes elétricas correm lado a lado pelas mesmas ruas. Uma é da E.ON, uma das maiores operadoras de energia da Europa. Está desativada há dezesseis anos. A outra foi construída pelos próprios moradores, com cota de três mil euros por casa, em parceria com uma empresa local e a prefeitura. Essa funciona.
A comunidade se chama Feldheim. Tem cento e trinta habitantes. Desde 2010, é abastecida inteiramente por eletricidade e aquecimento gerados localmente. As turbinas eólicas do entorno produzem cerca de duzentas e cinquenta vezes a energia que a comunidade consome, o suficiente para abastecer o consumo elétrico de cidades do porte de Campos do Jordão ou Paraty. Os moradores pagam, em média, doze centavos de euro por quilowatt-hora antes de impostos, menos da metade da tarifa residencial alemã, uma das mais caras do mundo.
Feldheim é o caso mais documentado de autonomia energética comunitária do planeta. Recebe três mil visitantes por ano. Foi premiada pela UNESCO em 2024 pela iniciativa educacional. E é, ao mesmo tempo, uma exceção rara. Em um país com onze mil comunidades rurais e a política energética mais agressiva do mundo desenvolvido, Feldheim continua sendo um dos pouquíssimos casos onde a comunidade construiu a própria rede de distribuição elétrica para conectar a geração local ao consumo local.
Este artigo é sobre como uma comunidade decidiu não depender, e o que isso ensina sobre o que falta para que outras façam o mesmo.
Como tudo começou
A história começou em 1993. Michael Raschemann, então estudante de engenharia, notou que os campos altos de Feldheim eram ideais para turbinas eólicas. Fundou a Energiequelle, negociou arrendamentos com os proprietários de terra e em 1995 quatro turbinas começaram a girar. A energia ia direto para a rede pública alemã. Os agricultores recebiam aluguel.
Durante mais de uma década, a operação foi crescendo dessa forma.
A decisão coletiva
O próximo capítulo acontece em 2008. Com o parque eólico já consolidado, surge o interesse de utilizar a geração local na comunidade. A Energiequelle procurou a E.ON, operadora da rede que atendia Feldheim, propondo arrendar as linhas existentes para distribuir localmente a eletricidade gerada pelas turbinas. A E.ON recusou.
Sem acesso à rede da concessionária, a geração local continuaria sendo exportada para o sistema nacional. A energia estava ali, ao alcance da mão, mas inacessível.
A resposta da comunidade foi inesperada para quem estava de fora. Em reunião comunitária, os moradores decidiram construir uma rede de distribuição própria, do zero, ao lado da rede da E.ON.
Cada morador entrou com três mil euros. Proprietários locais, comércios, igreja, escola e a prefeitura formaram a Feldheim Energie GmbH. O capital local levantado somou cerca de quatrocentos mil euros, suficiente para construir a rede elétrica de distribuição da comunidade.
Em outubro de 2010, a rede entrou em operação. A linha da E.ON foi mantida fisicamente no chão, sem operação. As duas redes, daquele dia em diante, passam a correr lado a lado.
Feldheim se tornou a primeira comunidade da Alemanha a construir e operar a própria rede de distribuição elétrica, conectando a geração local ao consumo local. Foi o ato que destravou tudo. Antes da rede própria, a energia gerada pelas turbinas saía direto para o sistema nacional e os moradores continuavam comprando da E.ON pela tarifa cheia. Depois dela, a comunidade passou a usar a energia produzida nos seus próprios campos, pelos seus próprios fios, com tarifas decididas localmente. Um feito raro mesmo na Alemanha, e até hoje praticamente sem paralelo.
Como funciona
Cinquenta e cinco turbinas eólicas nos campos do entorno produzem cerca de duzentos milhões de quilowatts-hora por ano. Além das turbinas, há um parque solar instalado sobre uma antiga base militar, com nove mil painéis, que contribui com cerca de mais um por cento. Feldheim consome menos de um por cento dessa produção total. O restante é injetado na rede pública alemã por preço fixo garantido em lei.
A comunidade conta ainda com um sistema independente de aquecimento das casas, abastecido por uma usina de biogás da cooperativa agrícola local.
Vale uma observação sobre o desenho. Feldheim não é cooperativa pura. Funciona porque cada parte envolvida ganha de forma direta. Os moradores pagam tarifa baixa. Os proprietários recebem aluguel pelas terras. A prefeitura arrecada imposto comercial. A Energiequelle recebe pela energia que fornece à comunidade e lucra também com a venda do excedente para a rede pública. Ninguém renunciou a nada.
As tarifas pagas pelos moradores são definidas em negociação entre os operadores e a sociedade local. A Energiequelle é empresa privada e tem margem comercial na operação. O que mantém o preço baixo não é renúncia ao lucro. É o desenho da rede local, que corta intermediários, encargos regulatórios pesados e a margem das distribuidoras nacionais. Sem esses custos no meio, o que sobra ao morador pagar é menos da metade da tarifa alemã típica.
Feldheim não vive isolada. Vive integrada. Continua conectada à rede nacional por contrato comercial, vende excedente, compra serviço de regulação quando precisa. O que mudou não foi a relação com o sistema externo. Foi a propriedade da infraestrutura de distribuição interna.
Resultados
Dezesseis anos depois, em 2026, a comunidade opera assim:
Tarifa elétrica em torno de doze centavos de euro por quilowatt-hora antes de impostos. Menos da metade da média alemã. Aquecimento dez por cento mais barato.
A prefeitura economiza centenas de milhares de euros por ano em combustíveis fósseis que deixou de comprar. Esse dinheiro reaparece em obras públicas. Feldheim tem pleno emprego. Três mil pessoas visitam o vilarejo por ano. Em 2024, o Neue Energien Forum, centro educacional local, recebeu o prêmio nacional da UNESCO em Educação para o Desenvolvimento Sustentável.
Por que Feldheim funciona
A primeira pergunta de quem visita Feldheim é se aquilo serve só para comunidades muito pequenas. A resposta honesta é que Feldheim é, por enquanto, um caso quase único. Mesmo na Alemanha, comunidades que construíram a própria rede de distribuição elétrica são extremamente raras.
Mas o que faz o modelo funcionar é simples e replicável em qualquer escala.
O sistema funciona porque foi desenhado para servir quem está dentro dele, não para extrair valor para fora. A infraestrutura não foi construída para maximizar lucro de uma operadora nacional. Foi construída para abastecer a comunidade com energia local barata.
Feldheim levou quinze anos da primeira turbina até a independência energética. O prazo foi longo porque o projeto não foi planejado na largada. As coisas foram acontecendo por consequência, uma decisão puxando a outra. Com planejamento a iniciativa poderia ser replicada em um tempo muito mais curto.
O que Feldheim conseguiu
Hoje, em 2026, Feldheim é uma comunidade pequena que reduziu drasticamente sua dependência energética. Encurtou o caminho entre a energia gerada nos campos e o consumo das casas. Cortou intermediários, encargos e margens que normalmente se acumulam entre a turbina e a tomada. Resultado: tarifa mais barata, dinheiro circulando localmente, infraestrutura própria, pleno emprego, jovens voltando para morar ali.
Feldheim não é uma fórmula a ser copiada literalmente. É uma demonstração. Mostra que uma comunidade pequena, com decisões pacientes e propriedade clara, pode construir o que falta entre a energia que existe ao seu redor e a vida que ela poderia sustentar. Não exige tecnologia nova. Não exige santidade. Exige tempo, alinhamento de interesses e a disposição de fazer.
No Brasil, com sol abundante, vento entre os melhores do mundo e capacidade técnica disponível, ainda não há um único caso semelhante. Não porque falte a engenharia. Porque a regulação atual proíbe o ato central da história de Feldheim, que é construir uma rede de distribuição própria conectando a geração local ao consumo local. Tramita na Câmara o Projeto de Lei 3.798, que tenta destravar esse desenho. Está parado.
Feldheim mostra o que uma comunidade unida pode construir junto: reduzir dependência, encurtar caminhos, baratear o que paga.