Sou jornalista. Mas antes de me assumir como tal, decidi mochilar pelo mundo.

Foram quase dois anos de Ásia. Isso foi no finalzinho do século XX. A China ainda era comunista, e lembro do dia em que cheguei em Pequim, ainda comunista, mas em franca transformação.

No norte da Índia, vivi uma das experiências mais marcantes da minha vida. Avistei o Himalaia, e desde então, tudo fez sentido para mim. Foram quase seis meses caminhando pelos vales himalaios da Índia e do Nepal. Minha vida mudou depois disso. Entendi profundamente a conexão com as montanhas, com o silêncio, com as águas do degelo. O prazer de caminhar apenas para chegar num refúgio com comida caseira e um fogo para se aquecer. A imensa satisfação de tomar um brevíssimo banho quente, com a água que cabia em um balde.

A cordilheira do Himalaia, fotografada durante meses mochilando pelos vales da Índia e do Nepal.

Foi assim que eu decidi ser jornalista. Para contar as maravilhas que tinha vivido.

Óbvio, nem tudo é belo. Muito pelo contrário.

Nos quinze anos seguintes, dediquei a minha vida a viajar e contar histórias através de documentários e reportagens especiais. Tanta beleza vimos. Mas testemunhamos o pior da humanidade. A intensidade desses anos moldou a minha forma de ver o mundo.

Na República Democrática do Congo, documentei minas de ouro, cobalto e tantalita marcadas pelo trabalho infantil e por uma das guerras mais devastadoras da história recente. No Sudeste Asiático, testemunhei a destruição de florestas tropicais inteiras para a produção de óleo de palma, eliminando habitats de orangotangos e milhares de outras espécies. No Brasil, acompanhei a conversão de vastas áreas do Cerrado para produzir soja destinada à alimentação de animais do outro lado do planeta.

Documentando a colheita de arroz no delta do Mekong, Vietnã.

Em cada lugar, a mesma equação. Recursos extraídos. Pessoas deslocadas. Lucro para alguém, em outro continente.

Sou um privilegiado. Nasci em uma família de classe média em São Paulo. Nunca faltou comida na mesa. Tive acesso à educação e oportunidades que grande parte da população mundial jamais teve.

Talvez por isso eu fique perplexo diante da inação de tantas pessoas bem informadas sobre a crise ambiental que vivemos. Em algum momento dos últimos anos, parei de aceitar essa inação em mim mesmo. Documentar o que estava sendo destruído deixou de bastar. Quis fazer alguma coisa real pela preservação.

Como costuma dizer um grande amigo, "nos acostumamos ao caldo morno do conforto. Um bom apartamento, um carro, segurança. É difícil abandonar essa vida para cuidar de uma fazenda."

Foi exatamente isso que fiz na Patagônia.

Junto com sócios e a minha família, decidimos comprar terra na Patagônia Norte. Não para explorar. Para preservar. A PATA nasceu disso. Fica no Chile, no pequeno vilarejo de Futaleufú, e ocupa três fazendas. Funciona há mais de dez anos. Noventa e cinco por cento da área é mantida como reserva natural, com bosques nativos e rios de águas claras. Cinco por cento sustentam quatro atividades que se complementam: hospedagem, imobiliária, agricultura orgânica e regeneração de ecossistemas. Geramos a própria energia, tratamos nossa água, gerenciamos nossos resíduos. Privilegiamos primeiro o impacto positivo na região. O retorno econômico vem como consequência da restauração e da preservação do entorno natural e social. É também onde eu e minha família vivemos. Onde criamos nossos filhos.

Sede do Pata Lodge com vista para as cordilheiras andinas.

Há quase quinze anos parei de só documentar a natureza. Passei a preservá-la.