Qualquer pessoa que acredite que o crescimento econômico pode ser infinito em um mundo de recursos finitos é um louco ou um economista.
A frase é de Kenneth Boulding, economista que entendeu antes da maioria que algo no modelo não fechava. Sessenta anos depois, a equação continua igual. A natureza está sendo destruída em ritmo acelerado, em todos os continentes, pelo mesmo mecanismo. Não é falha moral coletiva. É incentivo econômico funcionando exatamente como foi desenhado.
O que ninguém contabiliza
Em 1997, o economista Robert Costanza e doze colegas publicaram um artigo na revista Nature que tentou fazer algo que parecia impossível. Calcular quanto vale a natureza. Em dólares. O resultado foi 33 trilhões por ano, maior que o PIB mundial da época. Em 2014, com dados atualizados, o número passou para 125 trilhões. Quase o dobro do PIB global daquele ano.
O cálculo somou o que os ecossistemas entregam de graça à economia humana. Água limpa filtrada por florestas. Polinização sem a qual um terço da produção agrícola mundial não existe. Estabilidade climática mantida por oceanos e vegetação. Fertilidade do solo construída por microrganismos ao longo de séculos. Captura de carbono. Regulação do ciclo da água.
Esses são os serviços ecossistêmicos. Categoria econômica criada para registrar o que sempre existiu mas nunca foi contabilizado. Toda a economia humana depende deles, mas eles ficam fora dos mercados. Não aparecem em balanços corporativos. Não entram em planilhas de governo. Não geram receita para quem os produz ou os conserva.
Quem destrói um ecossistema captura o ganho privado da destruição: a madeira vendida, a soja plantada, o boi engordado, a palma extraída. Quem preserva entrega o benefício ao mundo, de graça, e fica com o custo da terra parada. O preservador se sacrifica por consciência. O destruidor lucra. A consequência desse modelo é óbvia. Não é difícil prever de que lado a maioria vai estar.
Como o ciclo funciona na prática
Vi isso de perto em três lugares.
Comecei pela África. A República Democrática do Congo é exemplo nítido do mesmo mecanismo. A columbita-tantalita, ou coltan, é uma mistura de dois minerais da mesma família química: a columbita, fonte de nióbio, e a tantalita, fonte de tântalo. No Congo, o que abunda é a tantalita, e o tântalo é usado em capacitores compactos que estão dentro de praticamente todo aparelho eletrônico moderno: smartphones, laptops, consoles, equipamentos médicos. O coltan extraído do solo congolês alimenta essa indústria global, mas o lucro é capturado por empresas que estão a continentes de distância. O custo fica no Congo. A floresta tropical, o solo, a água, e tudo o que dependia disso para existir.
O caso de Virunga é o mais nítido. A floresta abriga uma das últimas populações de gorilas das montanhas do mundo. O carvão produzido ilegalmente dentro da reserva alimenta a indústria de fundição e o uso doméstico em larga escala. A vegetação ancestral é devastada. Gorilas e guarda-parques já foram assassinados pelos traficantes de carvão. A floresta perde, a espécie perde, a comunidade local perde, e o lucro vai para quem está bem longe da reserva.
Visitei o país duas vezes e nunca vou esquecer das imagens que vi. Vilarejos incendiados. Crianças escravizadas em minas. A exploração no Congo vem acompanhada de violência política, conflito armado e trabalho escravo. É a mesma equação econômica que opera em todos os lugares, mas em escala mais brutal.
No Sudeste Asiático a mecânica é mais sistêmica. Plantações de óleo de palma destruíram mais de 3,7 milhões de hectares de floresta tropical nas últimas décadas. Indonésia e Malásia produzem 85% do óleo de palma mundial, em uma indústria de cerca de 44 bilhões de dólares por ano. A conta econômica do produtor é simples. Floresta intacta não rende nada para quem é dono dela. Floresta convertida em plantação rende milhares de dólares por hectare por ano, durante décadas.
Os custos sobram para o resto do mundo. Habitat de orangotangos destruído em quase 80% das duas ilhas. Plantações de palma têm um quinto da biodiversidade animal das florestas originais. Drenagem de solos turfosos libera carbono que estava preso há séculos. E quanto isso custa, em prática? Menos polinização para a agricultura ao redor. Mais incêndios. Mais carbono na atmosfera, contribuindo para o aquecimento que afeta colheitas, saúde e infraestrutura em outros países. Solos que levaram séculos para se formar e que sumiram em meses. Cada um desses prejuízos atinge alguém: o agricultor vizinho, o sistema de saúde nacional, a infraestrutura costeira de outro continente, a próxima geração. Ninguém na cadeia paga por nada disso. Nem o produtor que recebe pela colheita, nem a indústria que processa, nem o varejo que vende o produto final. O custo é absorvido pela vizinhança, pelo país, pelo planeta, enquanto o ganho vai inteiro para a indústria que está no topo da cadeia.
Na Amazônia brasileira, a equação é parecida com variações locais. O custo de desmatar um hectare varia entre 300 e 600 dólares. O lucro anual do gado por hectare desmatado fica entre 300 e 400 dólares. A soja paga muito mais. Por isso foi a soja que puxou historicamente a destruição: alguém desmatava barato e esperava que um produtor de soja viesse pagar caro pela terra limpa.
O que está em jogo é desproporcional ao que o produtor recebe. Em 2023, o Banco Mundial calculou que o Brasil pode perder até 317 bilhões de dólares por ano com a destruição da Amazônia. Sete vezes mais do que o país ganha com as commodities extraídas dela. Os 317 bilhões são serviços ecossistêmicos: chuva regulada pela floresta que rega lavouras em outros estados, água que move hidrelétricas, ar que respiramos, estabilidade climática. Tudo isso continua sendo destruído porque ninguém na ponta produtiva paga por ele. O lucro do desmatamento é privado. O prejuízo é coletivo.
Em 2024, o Brasil perdeu 2,78 milhões de hectares de floresta primária, a maior cifra desde 2019. O número caiu em 2025, mas a estrutura econômica continua igual. Floresta em pé não tem comprador. Floresta derrubada tem. O ciclo se mantém porque a equação que o sustenta nunca foi corrigida.
Quando consciência não basta
Conheço de perto a história dos Tompkins. Doug e Kristine eram empresários americanos do setor de moda — ele fundou a North Face e foi sócio da Esprit, ela foi CEO da Patagonia Inc por mais de duas décadas. Nos anos 90, decidiram usar a fortuna pessoal para comprar terra na Patagônia chilena e argentina, e preservá-la. Investiram 345 milhões de dólares ao longo de três décadas. Compraram mais de 800 mil hectares. E em vez de mantê-los como propriedade, doaram aos governos do Chile e da Argentina, com a condição de que virassem parques nacionais. Treze parques foram criados. Em 2018, Kris entregou ao Chile os parques Pumalín e Patagônia, na maior transferência privada de terras para conservação da história. Doug não viveu para ver. Morreu em 2015, em um acidente de caiaque no lago General Carrera.
Kris descreveu o que fizeram como um movimento de jiu-jítsu capitalista. Usaram capital privado acumulado na economia industrial para retirar terra dessa mesma economia. Foi o capital pagando para parar. E o gesto é poderoso. Os Tompkins não ganharam nada. Não montaram negócio. Doaram. Tudo por convicção pessoal. Mas é exatamente por isso que o modelo não se sustenta. O mundo não tem Doug e Kris Tompkins suficientes. E não pode depender de consciência ambiental individual de bilionários para impedir que a destruição continue. Precisamos de algo que funcione em escala. Algo que inverta a equação econômica, não que a contorne na margem.
O que precisa mudar
Passei mais de trinta anos documentando o que está sendo perdido. A peça analítica que falta no debate hoje não é mais de denúncia. Já se sabe o que está acontecendo. Costanza calculou. Os números do desmatamento estão publicados. As fotos do Congo, da Indonésia, do Cerrado, da Amazônia estão na internet.
O que falta é resolver a equação. Fazer com que preservar um hectare valha mais, economicamente, do que destruí-lo. Não em sentido moral, em sentido contábil. Que o proprietário de terra na Amazônia receba mais por manter floresta em pé do que por substituí-la por gado. Que o agricultor no Sudeste Asiático tenha incentivo financeiro para não converter floresta em palma. Que o serviço ecossistêmico tenha preço, comprador, mercado.
Isso não é fantasia técnica. Já existem mecanismos rodando em escala pequena no mundo todo. Pagamento por serviços ambientais. Mercados de crédito de carbono. Compensação por restauração. O que falta é escala, integração e desenho econômico robusto.
A oportunidade dessa geração é construir os mecanismos que faltam. Não é caridade. É correção de uma falha de contabilidade que tem 250 anos. Se a economia industrial deixou de fora os serviços ecossistêmicos, a próxima economia precisa incluí-los. Como ativo, não como externalidade.
Conservar precisa dar lucro. Ou o ciclo de destruição continua.